Renato Diz: “Em Nova Iorque, sinto-me num mar de águas livres sem risco de ‘predadores’”

01_Renato Diz_Lenny Pridatko.jpg
Renato Diz / foto Lenny Pridatko

Sonhava ser Psicólogo Criminal, muito por influência da interpretação de Anthony Hopkins em Silêncio dos Inocentes e de Kevin Spacey 000 Seven, mas quando aos 16 anos, num encontro casual assistiu, no Mercado Ferreira Borges, a uma performance do trio de Carlos Azevedo, e depois na mesma semana escutou o disco Köln Concert, de Keith Jarrett, mudou de ideias e decidiu dedicar-se à exploração do som. Falamos de Renato Diz. Pianista, compositor e produtor, actualmente a residir em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, para onde se mudou em 2011, onde concluiu um Duplo Mestrado em Piano Clássico e Performance Jazz  na New York University (actualmente uma das 30 melhores universidades do mundo), e se formou Summa cum laude (nota máxima). Em entrevista ao nosso blogue, o jovem músico fala-nos das suas escolhas, da sua experiência e do seu percurso.

 

Foste para os EUA, em 2011, onde trabalhas como músico. Fala-nos do ambiente musical que respiras aí.
Esta cidade não é muito vasta a nível geográfico, no entanto o que não possui em área compensa largamente em oportunidades.
O ambiente pode ser sufocante, se nos deixarmos levar pelo espírito da competição e comparação, mas pode também ser infinitamente libertador quando nos dedicamos a explorar o nosso potencial, no meio de todos estes estímulos infindáveis.
Os artistas mais incríveis do planeta, em todas as áreas, convergem nesta cidade mais cedo ou mais tarde, por isso a inspiração e as possibilidades nunca terminam!
É apenas necessário estar “acordado” no momento certo numa cidade que nunca dorme…

Vives como um peixe no aquário ou num mar de águas livres?
Em Nova Iorque, sinto-me definitivamente num mar de águas livres, sem risco de “pesca” ou “predadores”.

Tens actuado ao lado de grandes nomes da Música da cena internacional. Queres enunciar alguns, a título de exemplo?
Desde a minha chegada a Manhattan, já tive a felicidade de partilhar o palco e o estúdio de gravação com alguns seres incríveis como Ari Hoenig, Essiet Essiet, Ralph Alessi, Roy Hargrove, Alex Foster, Oscar Avilez, Jon Benitez, Steve Turre, Moto Fukushima, Badal Roy, Rich Perry, entre muitos outros.

No próximo sábado, dia 23 de Junho, vais actuar no Summerstage Festival, por onde vai passar também a Mariza, uma das nossas maiores vozes, conhecida e reconhecida por esse mundo fora. Que mais nos podes dizer acerca deste evento?
Sim, este sábado, vou ter o privilégio de actuar com o meu trio (Louis de Mieulle, Raphaël Pannier e a convidada especial Maria Quintanilla) no Summerstage Festival, o maior festival de música da Costa Este dos EUA. Com mais de 30 anos de história e centenas de milhares de pessoas, anualmente, a assistirem aos concertos, já ali actuaram nomes incontornáveis como Stevie Wonder, Metallica, Sting, Red Hot Chilli Peppers, entre centenas de outros.
Este será o segundo ano, desde a sua criação em 1986, em que haverá um dia dedicado somente à música portuguesa, graças ao trabalho incansável da Ana Ventura Miranda e do ARTE Institute. A seguir à minha actuação subirá ao palco o Noiserv. A Mariza irá terminar este dia tão especial.

Tens tido sorte ou é o resultado da tua dedicação e da tua resiliência?
Acredito que é uma interação harmoniosa entre trabalho, persistência e felizes oportunidades que nascem desses dois factores.

Quais são os projectos em que estás envolvido?
Neste momento, mantenho quatro projectos aqui nos EUA, (Renato Diz | Maria Quintanilla) com a cantora peruana, Maria Quintanilla; ZulfiqaRenatuS com o saxofonista azerbaijanês, Zulfugar Baghirov; EARPRINTS com o baterista francês Raphaël Pannier e o baixista francês Louis de Mieulle; e um projecto a solo). Além disso, tenho dois projectos em Portugal (Tríptico com o contrabaixista Alberto Jorge e o baterista Acácio Salero; e o ARS Trio com o contrabaixista Sérgio Tavares e o baterista Jorge Queijo).
Sou também o pianista e teclista do projecto Yuri Juarez Afroperuano Group e convidado regular nos projetos Uglybraine, Louis de Mieulle, Gabriel Alegria SextetLaura Andrea Leguía Afroperuvian OrchestraRachel Therrien Latin Jazz QuartetAriel DLP Collective; e Horacio Martinez Trio).
Para além destes projectos, colaboro assiduamente com artistas de outras áreas como o escritor angolano Ondjaki; a artista plástica luso-descendente Joana Ricou, ou o realizador coimbrense, Pedro Marnoto, para citar alguns.

Já participaste em diversas gravações. Para quando um CD a solo?
Desde 2011 já participei em mais de 20 gravaçōes de discos, dos mais diversos estilos musicais, com dezenas de artistas diferentes. Os meus cinco discos como co-líder, compositor, pianista/teclista e produtor, os quais estão disponíveis no Spotify, Apple Music/iTunes Store, Amazon e Bandcamp, são:

QaraBag (com o saxofonista azerbaijanês Zulfugar Baghirov):
https://itunes.apple.com/us/album/qarabag/880849596

Distance Chemistry (com a cantora peruana Maria Quintanilla):
https://renatodizmariaquintanilla.bandcamp.com/album/distance-chemistry

EARPRINTS (com o baterista francês Raphaël Pannier e o baixista francês Louis de Mieulle): https://earprints.bandcamp.com/album/earprints

Poetics Of Sight (com ARS Trio: com o contrabaixista português Sérgio Tavares e o baterista português Jorge Queijo): https://arstrio.bandcamp.com/album/poetics-of-sight

Breathing Taiwan (com a cantora peruana Maria Quintanilla e a percussionista taiwanesa Sayun Chang):
https://breathingtaiwan.bandcamp.com/album/breathing-taiwan

Neste momento, estou a preparar música para o meu primeiro disco a solo, o segundo disco com a Maria Quintanilla e um projecto novo que ainda não posso divulgar (superstiçōes de artista), para serem gravados ainda este ano e lançados nos próximos dois anos.

Tens consciência de que se não tivesses ido para os EUA, em Portugal não conseguirias fazer a carreira que neste momento tens. Apesar disso, vislumbras alguma hipótese de um dia voltar ou o teu lugar é aí?
A minha vida já teve tantas transformações magníficas, desde a minha chegada, que não consigo prever onde, e se algum dia vou ‘assentar’ num local só. Digamos que, neste momento, me sinto um terráqueo, cidadão do planeta, que nasceu no Porto e não consegue “parar quieto”.

Convido-te, agora, a viajar no tempo. Fala-me da tua formação em Portugal, mais concretamente em Vila Nova de Gaia, onde tudo começou.
As minhas primeiras memórias musicais podem ser divididas em 5 partes:
A primeira, o Coro do Mosteiro da Serra do Pilar onde ambos os meus progenitores ensaiavam e cantavam todas as semanas, até aos meus 10 anos de idade;
A segunda, a minha Mãe a cantar tudo o que passava na rádio, sem nunca falhar uma nota (entre essas notáveis performances destaco os Gipsy Kings, a Edith Piaf, a Amália Rodrigues e a Tina Turner). Estas ‘actuaçōes’ culminavam sempre com ela a pegar em mim e dançar, acrescento, de forma exímia!
A terceira, meu pai a tocar guitarra e a cantar músicas do José Afonso e do Paco Bandeira;
A quarta, as Festas da Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, onde todo o meu corpo vibrava profundamente com as batalhas dos bombos no fim da procissão;
A quinta, o rádio, ligado na Antena 2, ao meu lado enquanto eu passava as tardes inteiras no quarto dos fundos na casa dos meus avós maternos a montar e, principalmente, a desmontar legos.
Penso que esta amálgama de experiências constituem o início da minha formação musical.

Com que idade começaste a estudar música? E como surgiu essa vontade?
Comecei a estudar música aos 6 anos de idade e, se bem me lembro, a ideia não partiu de mim, mas sim de uma decisão conjunta entre os meus pais e os meus avós maternos (o meu avô era primeiro clarim do exército e durante muitos anos foi convocado para actuar em frente das paradas militares por todo o País, representando o exército perante os convidados mais distintos como reis e presidentes de outros países e até o Papa!).

O piano foi a tua primeira escolha ou experimentaste outros instrumentos?
Iniciei, desde logo, com o piano, mas durante a minha formação, no Conservatório de Gaia, estudei também viola de arco, flauta de bisel e percussão, sempre como instrumentos secundários ao piano.

Em que momento percebeste que a Música era o teu futuro e que era a ela que te querias dedicar a tempo inteiro?
Durante muitos anos, tive uma aversão quase visceral ao estudo/prática do piano, mas os meus pais nunca me deixaram desistir, argumentando que “um dia me iria dar muito jeito” (parece que tinham razão). Um dia, quando tinha 16 anos, estava a passear na Baixa do Porto com a minha mãe, e entrámos no Mercado Ferreira Borges porque tínhamos escutado música que dali saía. Num pequeno palco estava o Carlos Azevedo ao piano (que mais tarde foi meu professor particular), o Bruno Pedroso na bateria e o Pedro Gonçalves no contrabaixo (muito antes de fundar os Dead Combo).
O que aconteceu a seguir mudou completamente a minha perspectiva da música para sempre: o Carlos tocava todo curvado no piano sempre em diálogos com o Pedro e o Bruno. De repente levantava-se para ir tomar um cafezinho a uma banca que estava ao lado do palco enquanto o Pedro tocava coisas que eu não conseguia processar e o Bruno sempre em interacção na bateria. Depois o Carlos voltava ao palco, recomeçava a tocar e tudo aquilo parecia planeado ao mais ínfimo pormenor!  Era o Jazz….
Percebi ali que o estudo do piano já não era unicamente constituído por escalas, arpejos, estudos de Liszt, fugas de Bach, sonatas de Beethoven e estudos de Rachmaninov, também se podia IMPROVISAR!!!
Mas, o “golpe final” no meu choque foi o disco Köln Concert, de Keith Jarrett. Uma hora de música completamente improvisada com uma profundidade que me fez afogar nas minhas próprias lágrimas vezes sem conta.
A partir daí, o meu sonho de ser psicólogo criminal (graças ao Anthony Hopkins no Silêncio dos Inocentes e ao Kevin Spacey, no Seven) foi esmorecendo e a vontade de me encontrar na exploração criativa do piano foi crescendo. No entanto, ainda não me atrevia a experimentar. O meu ‘trauma’ do piano clássico era demasiado forte e o medo de não atingir o nível destes novos heróis, paralisante.

00_Renato Diz_Paul Machado numa performance que fiz com a Joana Ricou no Union Square Garden.jp
 Performance que Renato Diz fez com Joana Ricou, no Union Square Garden / Foto de Paul Machado

Quando é que aconteceu a metamorfose?
Quando tinha 18 anos, estava a fazer o exame nacional de psicologia (o que me iria dar entrada na universidade por ser a prova específica) e tive um daqueles momentos cinemáticos em que viajei dez anos no futuro e me tentei imaginar como psicólogo. A pessoa em que me tinha tornado nessa visão onírica criou-me uma imediata repulsa. Parei o exame a meio, saí da sala, cheguei a casa e comuniquei as boas novas: “MÃE! QUERO APRENDER A IMPROVISAR!”
O resto é uma sucessão de acontecimentos mirabolantes (material de romance!) que foram sempre confirmando que este era definitivamente o caminho que eu queria seguir! No fundo, quando reflicto no meu percurso, acredito que acabei por escolher a psicologia e a filosofia (das emoçōes), mas através do som. O acto de estar milhares de horas em frente ao piano e lidar constantemente com a insegurança, a vulnerabilidade da nossa personalidade relativamente à qualidade do nosso trabalho, a constante vontade de desistir quando algo persiste em não soar como queremos, a incerteza de saber se aquele som reflecte com precisão a ideia que ainda está a “fermentar” no cérebro, as dores insuportáveis de costas e braços provocados por más posturas e stress… todas estas situações, e muito mais, permitem um nível de auto-conhecimento e profundidade de reflexão que não seriam possíveis através da leitura académica ou até de sessōes com pacientes (refiro-me, claro, ao auto-conhecimento e não ao conhecimento das psicopatologias que possam existir naqueles que nos rodeiam).

Fala-me da tua partida para os EUA.
A minha partida surgiu por uma inevitabilidade. Sempre que tentava apresentar um projecto novo que englobasse estéticas mais desafiantes e desconhecidas para o público, as barreiras institucionais multiplicavam-se ao ponto de nenhuma sala de espetáculos de algum renome sequer responder a emails ou telefonemas.
E apesar de, na altura, ter uma agenda de concertos bastante preenchida com os meus projectos mais “comerciais”, o meu descontentamento com a mentalidade institucional em Portugal tornou a minha permanência em algo insustentável.
A acrescentar a este infortúnio, considerei que a minha formação académica iria beneficiar largamente de uma experiência no centro cultural do mundo!
Enviei os pré-requisitos para a New York University (que considero possuir, talvez, o melhor corpo docente do mundo no que toca a departamentos de jazz) e fui aceite.
Recebi uma Bolsa por Performance Extraordinária e uma Bolsa da Ella Fitzgerald Foundation no segundo semestre, fui convidado a leccionar nos departamentos de piano e jazz, e graduei-me em 2013 Summa Cum Laude (com a nota mais alta do departamento), com um duplo Mestrado em Piano Clássico e Jazz.

Eu, porque te conheço há muitos anos sei, mas o público em geral não sabe. Independentemente da tua vocação e dos diversos professores que tiveste, ao longo da tua formação, há uma pessoa sem a qual, muito provavelmente, não terias conseguido trilhar o teu caminho. Fala-nos do papel dessa Mulher e do peso dela nas tuas decisões.
Edith Maria Prior Diz é o nome da pessoa mais importante na minha vida. Mãe, melhor amiga, confidente, constante inspiração como ser humano e melhor conselheira de sempre (literalmente, sempre que não sigo as dicas dela, alguma coisa corre mal).
Esta mulher, para além de ser fisicamente a minha razão de existir, foi a ÚNICA pessoa que nunca duvidou do meu potencial e que sempre me assegurou que eu conseguiria tudo a que me dedicasse. Desde chegar a casa cansadíssima do trabalho e se sentar a verificar os meus trabalhos de casa (sim, sempre que possível eu “evitava” terminá-los, digamos que o “pseudo-artista” em mim já naquela altura adorava o conceito de “liberdade criativa”…), escutar por horas sem fim as minhas ideias filosóficas sobre a existência e a conexão entre tudo o que existe, acompanhar-me aos filmes menos comerciais (como IrreversívelDancer in the DarkTitus AndronikusFunny Games e outras afins odisseias…), no Passos Manuel e no Cidade do Porto; peças de teatro experimental em galerias da Rua Miguel Bombarda, exposiçōes de arte contemporânea em Serralves, concertos de Rock e Heavy Metal nas Noites de Ritual Rock no Palácio de Cristal, sessōes de escuta de discos de John Zorn-Stockhausen-Berio-Tool-Pink Floyd (e muitos, muitos outros!). Esta mulher esteve SEMPRE lá para mim e sem ela eu nunca teria conseguido chegar onde cheguei (ou sequer perto!!!). A ela devo TUDO o que sou, e só espero um dia conseguir inspirar alguém da mesma forma que ela me inspira diariamente.

Em que palco(s) gostavas de tocar em Portugal, numa das tuas próximas viagens ao nosso país?
Sem dúvida, gostaria de voltar à Casa da Música e à Fundação de Serralves, gostaria ainda de actuar no Rivoli – Teatro Municipal, no CCB, na Fundação Calouste Gulbenkian, isto para começar…

 

 

One thought on “Renato Diz: “Em Nova Iorque, sinto-me num mar de águas livres sem risco de ‘predadores’”

  1. Emocionadissima e muito grata a ti, querida Isabel, por teres proporcionado esta maravilhosa, e diria até intimista, entrevista! Bem hajas 🙏 És uma pessoa fantástica, lutadora, que admiro e desejo que tenhas sucesso com o teu blogue! Xi❤️ com muito carinho 🌻

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s