Cláudia Oliveira: “O público português é sempre um pouco agridoce”

Tem 40 anos, nasceu em Valongo e formou-se em Designer Têxtil, no Citex. Em 2011, quando procurava um suporte para as suas ilustrações padrão descobriu “por acaso” uma forma de se expressar que se traduziu na criação das Marias Paperdolls. Um projecto criativo que começou a dar nas vistas, tanto que as suas bonecas de papel além de já serem conhecidas em diversos países europeus, como Bélgica, Espanha, França, Itália, Áustria Dinamarca e Canadá agora, também o são do outro lado do mundo, no Japão. Em conversa, com o nosso blogue, Cláudia Oliveira, fala-nos desta sua aventura.

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Acaba de chegar do Japão, onde realizou uma exposição com as suas Marias Paperdolls. Como surgiu este convite?
O convite surgiu da parte da Associação Selectiva Moda (ASM), no âmbito da “Interior Lifestyle”, que convidou um grupo de designers para comporem um stand, representativo do Design Português no Japão. Grupo do qual fiz parte, numa exposição entre os dias 30 de Maio e 1 de Junho.

Como correu a experiência em Tóquio. Qual foi a reacção do público à sua arte?
A experiência correu muito bem. O meu trabalho foi muito apreciado, teve o impacto de que eu estava à espera e surgiram boas oportunidades. Estas feiras, como costumo dizer, são campos onde se lançam pequenas sementes que depois, regando e cuidando, podem vir a florescer e a dar os frutos que pretendemos.

Recuando um pouco no tempo, como surgiram as bonecas de papel na sua vida?
As bonecas surgiram por acaso, em 2011. Andava à procura de um suporte para as minhas ilustrações padrão e comecei a fazer t-shirts e malas. No entanto, o mercado já estava um pouco saturado com este tipo de produtos. Como sempre me preocupou a preservação do meio ambiente, aconteceu encontrar esta “tela” diferente.

Quer, então, dizer que a preocupação com a pegada ambiental e o aproveitamento dos materiais que usa, nomeadamente o papel, contribuíram, de alguma forma, para esta escolha?
Cada vez mais, as coisas, na sua generalidade, têm muito pouco tempo de uso. Vivemos numa sociedade de consumo, de usar e deitar fora. E isso faz-me muita confusão. Por isso, tento olhar para tudo e perceber de que forma posso dar uma nova vida a algo, cujo destino seria lixo.

Que materiais utiliza, preferencialmente, na elaboração das suas Marias?
Os mais variados, desde jornais, flyers publicitários, balões, cola e tintas acrílicas.

 Qual a razão do nome? Foi já a pensar na internacionalização?
Marias, porque queríamos algo português, algo nosso. E, sim, sempre tive a ideia de ver o meu trabalho espalhado pelo mundo. Daí, Paperdolls.

As Marias Paperdolls já foram apresentadas em diversos países europeus.
Sim. De uma maneira ou de outra, já foram apresentadas em países como Espanha, França, Itália, Dinamarca, Suíça e Suécia, na Europa. E fora da Europa, no Canadá e agora no Japão.

Nessas exposições que fez no estrangeiro, tem notado a presença de público português?
Sim, encontramos sempre portugueses e é sempre uma alegria. O nome chama-lhes a atenção e aproximam-se automaticamente.

E por terras lusas, como reage o público às suas bonecas de papel?
O público português é sempre um pouco agridoce. Temos sempre grandes  expectativas e, na maioria das vezes, esperamos mais do que o público está preparado para dar. No entanto, acredito que sim. A nossa sociedade está em mudança e começa a ter maior sensibilidade para os produtos portugueses. Fomos habituados a considerar que o que é estrangeiro é que é bom. Mas já se notam os efeitos da mudança com feitos comprovados, como por exemplo, na música com o Salvador Sobral ou no futebol com a vitória no Europeu. Estamos a mudar e começamos a acreditar em nós e naquilo que fazemos. Não nos podemos esquecer que fomos um povo destemido e conquistador que construiu um imenso Império espalhado pelo mundo.

Em que é que se inspira para vestir as suas Marias?
Tudo me inspiram. Desde uma festa popular de que alguém fala com muito interesse; a paixão de alguém por um assunto; vidas de pessoas que inspiram, a Moda tendo em conta a minha formação ou algo que vejo e que acho realmente bonito. Em todos estes assuntos, faço uma grande pesquisa e nascem colecções. A primeira colecção foi da Florbela Espanca. Adoro os poemas dela. Criei uma coleção com padrões diversos, mas todas elas tinham poemas. Outra colecção foi dedicada ao tema “Bugios e Mourisqueiros”. Um amigo falou-me da festa de uma forma que eu não entendi, pois os olhos dele brilhavam a falar da festa. Então, fiz uma grande pesquisa, falei com muitas pessoas e nasceu essa coleção. Um dia, pediram-me uma boneca inspirada em Frida Kahlo. Quando fui ver quem era realmente essa mulher fiquei tão apaixonada que não consegui criar apenas uma. Ainda hoje continuo a criar. Uma outra colecção que considero bastante interessante é a das “Mulheres e a Música”. Foi um prazer enorme conhecer a história de cada uma delas. Outras inspirações chegam-me, por exemplo, das tendências de Moda ou de estilistas que me fascinam. Agora, ando à procura do próximo grande tema.

Preocupa-se em adequar os padrões da indumentária das bonecas, consoante o destino onde as vai expor?
Quando vou para o estrangeiro levo sempre algo representativo de Portugal. Sinto que tenho esse dever, mas adequo sempre o meu trabalho ao país para onde vou, o que me ajuda a conhecer outras tradições, novas histórias e vivências e isso é muito estimulante.

Quando é que percebeu que o seu futuro, enquanto artista plástica, passava por esta forma de arte?
Foi por volta de 2015 quando percebi qual era a verdadeira essência por trás destas minhas pequenas esculturas. Elas são uma forma de conhecer histórias, passar mensagens, reconhecer a importância da mulher no papel da sociedade. São, de alguma forma, uma homenagem à mulher.

Tem outros projetos ligados às artes plásticas ou está focada a 100 por cento neste?
Não. Tenho outros projectos de design que vão aparecendo. Há pouco tempo criei uma regueifa gigante em papel, uma cápsula do tempo em latão e muitos outros.

E qual foi o destino desses objectos? Estão expostos em algum lugar? Ou foram realizados para algo de concreto?
Foram adquiridos, pois tinham sido pedidos pela Câmara de Valongo. Além disso, também fiz um cenário de uns esqueletos, a partir da reciclagem, para um filme francês. A cestaria é outra das minhas grandes paixões e já desenvolvi produtos nessa área.

Onde será a sua próxima exposição? Já tem destino e data?
Ainda não tenho a confirmação, por isso teremos que aguardar.

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E para saber mais basta clicar aqui.

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