Catarina de Matos: “Espero inspirar cada vez mais pessoas”

Hoje, dia 3 de Julho, assinala-se o Dia Internacional Sem Sacos de Plástico e o nosso blogue não quis deixar passar a efeméride em vão. Vai daí, estivemos à conversa com Catarina de Matos, uma arquitecta de formação e profissão, apaixonada pelo meio ambiente e empenhada em “combater” o plástico através da Mind The Trash. De conta no Instagram, onde dava dicas a quem a seguia, nasceu já a Mind The Trash Consulting Lda, criada a 5 de Julho de 2017. Portanto, daqui a dois dias está de parabéns pelo seu primeiro aniversário. Mas a Catarina de Matos é que está realmente de parabéns por tamanha iniciativa. Vão já perceber porquê, depois de lerem a entrevista que se segue onde ficamos a conhecer um pouco melhor o percurso desta guerreira.

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Já depois de estar formada e a trabalhar num gabinete de Arquitectura, decidiu ir viver para Londres. O que a levou a ir para fora do país?
Numa altura de crise, em que havia muito desemprego, posso dizer que eu era uma sortuda. Tinha tudo o que precisava, um emprego estável em arquitetura, amigos, família e tudo estava a correr bem. Mas questionava-me diversas vezes: “É só isto, o que a vida tem para me dar? Quero mais! Quero conhecer outras cidades, outras maneiras de viver e de trabalhar. Quero sair da minha zona de conforto e se não o fizer agora, nunca o irei fazer”. Larguei tudo e mudei-me para Londres, uma cidade que me acolheu por dois anos e meio. Uma cidade que me fez crescer e ver a vida com outros olhos. Mudei-me em Dezembro de 2014 e regressei em Março de 2017.

O que a fez regressar a Portugal?
As saudades da família, dos amigos e, principalmente, pelo facto de ter recebido a notícia que a minha irmã estava grávida. Lembro-me perfeitamente de estar numa festa, em casa de uns amigos, e receber uma chamada da minha irmã a dar-me a notícia! Após uma semana do meu regresso nasceu a minha sobrinha Carolina. Se não tivesse sido pela minha sobrinha, acredito que teria ficado mais algum tempo por Londres.

E o que leva uma Arquitecta a abandonar a sua carreia para se dedicar à Mind The Trash? 
Arquitetura sempre será uma paixão, mas ter trabalhado fora de Portugal fez-me perceber o quanto somos explorados por cá, na área de arquitetura. Longas horas de trabalho, maus salários e recibos verdes (quando existem!).
Em Londres nunca fazia horas extras, todos saiam a horas, o salário era ótimo, dava para viajar e conhecer sítios novos, visitar a família e os amigos e ainda poupar. E a melhor parte é que trabalhava das 9h às 17h30. Saia do trabalho e ainda tinha tempo para ver os amigos e ir ao ginásio. Era mais produtiva e feliz.
Em Portugal, infelizmente a mentalidade é outra, em que sair a horas significa que não se está empenhado, somos sobrecarregados com trabalho e sem ver esse esforço reflectido ao final do mês. Acredito que é muito importante termos uma vida social e, por experiência própria, posso afirmar que é bem mais produtivo.
Farta da mentalidade portuguesa, a minha vontade de trabalhar num atelier em Portugal começou a diminuir significativamente e começou a surgir a vontade de trabalhar por conta própria. A ideia inicial era a de ter o meu próprio atelier de arquitetura e a Mind The Trash, como conta de Instagram, era apenas um hobbie.

Desde sempre se preocupou em ter um estilo de vida sustentável ou foi um
estilo de vida que adoptou recentemente?

Em paralelo à paixão pela Arquitetura esteve sempre o meu gosto por um estilo de vida mais sustentável. Ainda em casa dos meus pais, nos tempos de faculdade, começei a aperceber-me da quantidade significativa de plástico que deitávamos fora sem quase terem sido usados. Não entendia o porquê e ficava bastante chateada por estar constantemente a ir ao ecoponto no cimo da rua. Assim, comecei a tentar comprar frutas e vegetais no mercado local, de forma a evitar algum plástico.
Desde esta altura que me preocupo em ter um estilo de vida mais sustentável.
Recordo-me de me sentir um ET e de me chamarem de “velhinha” por levar o carrinho de compras para o supermercado, quando nessa altura quase só se viam idosos a utilizá-los. Eu não queria saber se parecia velha, dava-me imenso jeito! Podia trazer tudo sem sacos de plástico e era bem mais fácil de transportar. Recordo-me também de no atelier em que trabalhei fazer os meus próprios cadernos com os restos de papel da impressora e as capas com restos das caixas de cartão. Sempre adorei artes manuais e desde criança que me entretinha a criar algo novo a partir de materiais que iam para o lixo.

O que mais a motivou a criar a Mind the Trash?
Ao mudar-me para Londres, a vontade de reduzir a minha pegada ecológica aumentou drasticamente ao ver tanto plástico descartável a ser deitado fora por dia! Deparei-me com uma realidade bem pior que a portuguesa. O plástico estava em todo o lado e nos supermercados tudo vinha embalado em plástico. Bananas, laranjas, pepinos… TUDO! Durante algum tempo foi complicado evitar estas embalagens, mas depois de perceber os dias em que se realizavam os mercados biológicos, passei a fazer a maioria das minhas compras nestes mercados uma vez por semana. Em Londres também acabei por descobrir uma grande quantidade de produtos para a casa, alternativos ao plástico e que não encontrava em Portugal. Assim, após partilhar diversas alternativas na minha conta pessoal de Instagram, decidi criar a conta Mind The Trash, onde partilhava o meu percurso e dicas para se viver um estilo de vida com menos plástico. Um estilo de vida mais sustentável e amigo do ambiente. Sem dúvida o apoio dos meus amigos, do meu actual ex-namorado (e parceiro de negócio) e dos seguidores do Instagram foi crucial. Nunca senti que não tinha apoio.
O regresso a Portugal foi bastante complicado, na medida em que perdi todos aqueles produtos alternativos que tinha descoberto. Não encontrava nada em Portugal! Apenas lojas de compras de comida a granel e pouco mais.
Mas e todos aqueles acessórios que eu utilizava? Quando precisasse de os substituir como iria fazer? A curiosidade dos amigos e a vontade de também quererem reduzir a sua pegada ecológica, fez-me levar a Mind The Trash mais longe. Criar uma loja online onde pudesse partilhar os produtos que já utilizava. Uma loja online para que todos pudessem ter acesso, onde quer que morassem.

De conta no Instagram, onde, por hobbie, dava dicas a quem a seguia, nasceu a Mind The Trash Consulting Lda. Foi fácil acreditar na força e no potencial, deste projecto?
Como costumo dizer, a Mind The Trash enquanto estilo de vida já existe há muito tempo, mas a empresa só foi criada a 5 de Julho de 2017, 9 dias antes de fazer os meus 30 anos. Sempre soube que o projeto tinha bastante potencial, por ver a crescente preocupação geral com o ambiente e também porque, na altura em que o criei, não existiam outras lojas online deste tipo em Portugal. Contudo, não foi fácil pôr o negócio de pé. Custou-me todas as minhas poupanças. O stress e a preocupação
levaram a que eu e o Christian acabássemos por nos separar. Durante os
primeiros meses da empresa, estava a trabalhar num atelier, em Cascais, e fora
de horas, na Mind The Trash. Dormia cinco horas por dia. Acordava às 5h30 para preparar as encomendas, para às 9h as colocar nos CTT e depois lá ia trabalhar para o atelier. Andava exausta! Chegava a casa às 20h e ainda tinha de responder a e-mails e tratar de toda a gestão do site. Foram tempos complicados em que a exaustão me fez
perder o chão, a noção de mim mesma e uns bons quilos. Após muita ponderação, decidi que tinha que me dedicar apenas à Mind The Trash.  Felizmente, eu e o
Christian continuamos muito unidos e a trabalhar juntos neste projecto que cuidamos com muito carinho e dedicação. Não me podia obviamente esquecer do Bali! O nosso leal membro da equipa que me acompanha todos os dias e que me deixa com um sorriso no rosto mesmo nos dias mais complicados. (O Bali é um cão que Catarina encontrou abandonado e resolveu adoptar).

Que tipo de produtos vende e quais os mais procurados?
A maioria dos nossos produtos são produtos que utilizamos, no nosso dia-a-dia, nas nossas casas. São produtos que comecei a utilizar e que recomendo.
Os mais procurados são as palhinhas de aço inoxidável e as pastas de dentes da Georganics, da qual somos distribuidores em Portugal. Esta foi uma marca que descobri em Londres, após várias tentativas falhadas de criar a minha própria pasta de dentes. Mal me mudei para Portugal falei com a marca de forma a trazer os produtos para cá. As pastas são feitas de ingredientes orgânicos e de base alimentar e embaladas num frasco de vidro que pode ser reutilizado para outros fins, como por exemplo, guardar especiarias.

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E sente que as pessoas começam a preocupar-se em mudar determinados hábitos?
Sem dúvida! Noto que muitas pessoas nunca pararam para pensar sobre a sua pegada ecológica e quando deparadas com isso têm vontade de alterar alguns hábitos. O grande problema que existia, até hoje, é que não existiam alternativas, facilmente disponíveis. Felizmente estamos cá para facilitar o processo, dando o exemplo e expondo alternativas.

No passado dia 8, celebrou-se o Dia Mundial dos Oceanos. Um pouco por
todo o lado, houve iniciativas de sensibilização para a limpeza do mar, cuja
maior concentração de lixo, parece ser o plástico. Hoje assinala-se o Dia Internacional Sem Sacos de Plástico. Acredita que, cada vez mais, faz sentido o caminho que está a trilhar?

Algo tem de mudar na nossa sociedade, e urgentemente, pois são inúmeros os problemas relacionados com o consumo e criação excessiva do plástico. Desde ilhas de plástico nos oceanos ao microplástico na comida que ingerimos, este material rodeia-nos para onde quer se se olhe. Campanhas de sensibilização são muito importantes e todos nós temos de dar o nosso voto contra o plástico, evitando-o o máximo que conseguirmos.

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Considera que estas efemérides podem ajudar a agitar mentalidades, ou vai
ser muito difícil mudar o paradigma da utilização do plástico?

Acredito que irá agitar mentalidades, no entanto, a grande maioria das pessoas, com o stress do dia-a-dia e falta de tempo, irá continuar a dirigir-se aos supermercados e hipermercados, onde podem adquirir uma grande variedade de produtos e num horário tardio. Estes espaços têm um papel muito importante na mudança e sem o apoio destes acredito que seja muito complicado, para muitas pessoas, “fugirem” ao plástico.

Desde que deu início à sua loja online, tem sentido um crescimento na
procura dos produtos orgânicos e sustentáveis que vende?

Sem dúvida! As nossas vendas têm subido de mês para mês e o feedback tem
sido excelente! Fico muito feliz ao ver que cada vez mais pessoas procuram alternativas.

Vende para qualquer parte do País. Qual ou quais as regiões que mais a
procuram?
Lisboa e Porto são as cidades que se destacam, mas já vendemos para diversas zonas do País. Posso afirmar que o nosso objectivo, enquanto loja online, está cumprido ao ver encomendas para aldeias de que nunca tinha ouvido falar.
Só demonstra que a nossa “voz” está a ser ouvida e que existem pessoas em zonas mais rurais a quererem fazer parte da mudança.

Além da loja online desenvolve algum género de iniciativas que motivem as
pessoas a abandonar a utilização do plástico? Em caso afirmativo, quais, onde e para que público(s)?

Sim. Ter uma loja online onde apenas colocava produtos sustentáveis para venda não fazia qualquer sentido para mim. Com a Mind The Trash quero dar o exemplo e servir de inspiração para outros. Dou palestras sobre formas de reduzir o plástico no nosso dia-a-dia, criámos a iniciativa “Palhinhas, Não Obrigada”, que luta contra a utilização de palhinhas de plástico em cafés, restaurantes e bares e, regularmente, na conta de Instagram falo de soluções que adoto em casa. Seguem-se muitas mais iniciativas e, passo a passo, espero inspirar cada vez mais pessoas.

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Podem descobrir muito mais clicando aqui.

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