Agostinho Santos: “Considero-me um homem de causas”

“Não podemos cruzar os braços e produzir objetos apenas para condizerem com os cortinados ou a cor dos sofás da casa. A arte é, e deve ser, interventiva e o criador não pode, nem deve, repito, meter a cabeça na areia como se nada de mal estivesse a acontecer à nossa volta.” A afirmação é de Agostinho Santos, jornalista, artista plástico e mentor do Museu de Causas. Um projecto que nasceu da sua tese de Doutoramento – “Paleta Contemporânea – Museu de Causas: Bases de um projeto museológico solidário: Eu e os outros”,que assenta na criação de um espaço expositivo, que se transforme num polo catalisador da arte contemporânea em Portugal. Além do Museu de Causas, fala-nos ainda de um outro projecto que lhe é muito caro e que designa de “Preciosidades /Livro de Afetos de Agostinho Santos”, o qual, graças ao incentivo de alguns amigos será publicado em breve. Em entrevista ao nosso blogue, abre-nos as páginas das suas causas e das suas convicções.

04_Minha foto por Lauren Maganete -3
Foto de Lauren Maganete

 

 

Ao longo da tua vida, conciliaste o Jornalismo e as Artes Plásticas. Actualmente, dedicas-te apenas à Arte. És director da Bienal Internacional Arte de Gaia, coordenador da Onda Bienal e continuas a ser presidente da Direção dos “Artistas de Gaia – Cooperativa Cultural”. Mas, nos últimos tempos tens vindo a dedicar-te a um projecto maior – o Museu de Causas. Fala-me deste sonho que começa a ganhar vida.
Continuo a escrever e a desenvolver vários projetos nesta área, mas agora, a arte ocupa, finalmente, um espaço maior na minha vida. A arte no sentido de produção, de execução de obras pessoais e a arte como forma de divulgar o trabalho de outros pintores, escultores, ceramistas, fotógrafos e por aí fora. A curadoria de bienais, exposições é igualmente uma das atividades que desempenho atualmente com muita entrega e dedicação. Quanto à questão concreta do Museu de Causas /Coleções Agostinho Santos, tudo está relacionado, ou seja, tudo começou com a tese que defendi e foi aprovada no âmbito do meu doutoramento pela Faculdade de Letras e Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. A tese intitulada “Paleta Contemporânea – Museu de Causas: Bases de um projeto museológico solidário: Eu e os outros” assenta, fundamentalmente, na criação de um espaço expositivo, de um centro cultural, que se transforme num polo catalisador da arte contemporânea em Portugal. A componente social será (é) a que mais apela aos problemas e confrontos do mundo contemporâneo, como as injustiças, a guerra, a fome, o desemprego, a degradação dos direitos dos trabalhadores, a corrupção, a fraude fiscal, a questão dos refugiados, a sobreposição do poder económico sobre os mais importantes valores da condição humana, enfim todo um conjunto de dramas que tocam a toda a gente com alguma sensibilidade. O objetivo é sensibilizar, desafiar, encorajar os criadores para abordarem plasticamente estes temas.

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A tua tese acabou por ser publicada em livro. Foi a primeira abordagem pública que fizeste do Museu de Causas?
Sim, a tese foi publicada e aquando do lançamento do livro “O Pincel é uma arma”, convidei o sociólogo, Eduardo Vítor Rodrigues, que por sinal é o presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, para o apresentar. Ele aceitou e depois desafiou-me a que o projeto ficasse sediado em Vila Nova de Gaia, o que muito me orgulha, pois é a terra que amo, onde vivo, trabalho, luto e onde gostaria de morrer.
Este projeto é inédito e, a meu ver, interessante, e apesar de ficar sediado em Vila Nova de Gaia é de âmbito nacional. Daí que se pretendam fazer inúmeras mostras e debates nos mais diversos pontos do país, sobretudo em Lisboa e no Porto – onde existe o maior número desses dramas. Sem esquecer as pequenas cidades, queremos levar a arte de intervenção ao encontro das pessoas.
Os objetivos deste museu, que se pretende seja político, que provoque a reflexão e a discussão, foi apresentado oficialmente nas recentes comemorações do 25 de Abril e, simultaneamente, no Convento Corpus Christi foi inaugurada a exposição “Para a construção de um Museu de Causas /Coleções Agostinho Santos”, que contou com cerca de 70 obras de 44 artistas e também com algumas obras de minha autoria.
Depois disso, já recebemos inúmeros convites para divulgar e expor temas de intervenção social em vários municípios do país. Agora estamos a começar a trabalhar afincadamente no projeto, que envolve atualmente um acervo de cerca 6500 obras, algumas de minha autoria e mais de 1500 de mais de 350 autores, nacionais e estrangeiros.

Queres indicar-nos alguns desses nomes?
Entre muitos, muitos outros, na minha colecção estão representados artistas como Júlio Resende, Júlio Pomar, Graça Morais, José Rodrigues, Nadir Afonso, Ângelo de Sousa, Zulmiro de Carvalho, Jaime Isidoro, Paulo Neves.

Por que é que sentiste necessidade de criar este Museu?
Considero-me um homem de causas, ainda acredito que é possível melhorar as coisas, lutar por uma vida mais justa para todos, mais igual e mais solidária.
Senti e sinto que os pintores, os desenhadores, os escultores, os fotógrafos, os escritores, os atores, os encenadores, os músicos, os agentes culturais não podem, nem devem ficar indiferentes aos males do mundo, às injustiças que proliferam e atingem milhares, milhões de seres humanos. Ninguém de bom senso pode virar as costas, ninguém de boa fé pode enterrar a cabeça na areia ou assobiar para o ar. Por isso, é preciso fazer alguma coisa, é necessário sensibilizar os artistas, os consagrados e também os mais novos a tratarem estes temas de intervenção social, porque a arte é uma arma e os criadores podem e devem ter uma palavra a dizer, uma pintura e uma escultura podem “atacar”, denunciar e alertar para o que está mal. Não podemos cruzar os braços e produzir objetos, quadros, apenas para condizerem com os cortinados ou a cor dos sofás da casa. A arte é e deve ser interventiva.
Um dos meus temas principais de trabalho que, aliás, está bem patente na minha carreira artística é, precisamente, a intervenção social. Por isso, achei que era necessário mostrar especificamente o que desenvolvi nessa área e, ao mesmo tempo, mostrar o que outros criadores fazem também, em torno desses temas. Acho que o projeto é inovador, inédito e precisa de ser divulgado e juntar à sua volta cada vez mais artistas. Felizmente temos conseguido.

De que forma é que, do teu ponto de vista, o Museu de Causas vai ajudar a sociedade civil?
Ajudar é uma palavra que sinceramente não gosto muito de utilizar, muito menos, na vertente artística. Penso que o Museu de Causas / Coleções Agostinho Santos poderá ter uma atividade muito importante na sensibilização dos artistas e do público em geral. O Museu será um projeto político, sério, que pretende sensibilizar para a necessidade de se ver a outra parte da utilidade da arte, não apenas a parte de beleza exterior, decorativa, mas também uma arte com mensagem que obrigue ou incentive as pessoas (artistas e público) a pensar. Ficaria muito feliz que o público quando visitasse o museu ou uma das exposições por nós inauguradas retivesse do que viu uma mensagem e que contribuísse para uma maior reflexão e aprofundamento da arte de causas, da arte que se preocupa com os outros.

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Agostinho Santos no seu Atelier, em Vila Nova de Gaia

Este Museu será constituído com que obras?
Com o meu espólio, ou seja, a partir de duas coleções fundamentais: a minha, as centenas, talvez milhares, que produzi ao longo dos anos e que versam esses temas e também as obras que possuo de outros autores e que fui colecionando com muita dedicação, amor e entrega. É um acervo significativo, que dá para suportar inúmeras exposições. Mas, desde que o projeto foi anunciado e divulgado, posso dizer-te que foram muitos os artistas e de vários pontos do país que me cederam trabalhos para este projeto inédito e solidário.

Como já referiste, foste convidado a sediar este Museu em Vila Nova de Gaia. O local já está definido?
Sim, o local à partida já está escolhido, não depende só de mim, mas já existem convergências quanto ao local e tudo está a ser preparado, sem pressas, mas com os pés bem assentes na terra. Como deves compreender, o projeto consiste numa parceria, num acordo com a Câmara Municipal e não serei eu, em ato isolado, que divulgarei o espaço. A seu tempo, e por quem de direito, será anunciado, mas neste momento, mais do que o espaço físico, e isso posso divulgar, com todo o orgulho, é que estamos a preparar um projeto de âmbito nacional de modo a que as obras do acervo se constituam em exposições e possam ser vistas pelo maior número de público e nos mais diferentes municípios.

Pretendes que o Museu de Causas tenha polos em diversos pontos do país. Vão ser criadas parcerias com municípios?
Assumo que tudo está ainda em estudo, partimos do zero, mas ideias e projetos temos muitos. Como já disse, desde que o projeto foi anunciado, no âmbito das Comemorações do 25 de Abril em Vila Nova de Gaia já recebi imensos contactos de artistas, de associações, de museus, de autarquias para levar exposições do “Projeto para a construção do Museu de Causas /Coleções Agostinho Santos” a muitos lugares, de Norte a Sul do País. Neste momento, estamos a planear a programação e em setembro avançaremos com uma grande exposição no Douro, com novos artistas e novas obras e já estão agendadas outras, a partir do início de 2019. Mas, vamos com calma, temos noção que um projeto deste calibre só poderá ter êxito e cumprir os objetivos se for devidamente alicerçado e estruturado.

 

Numa segunda fase, talvez proponha a realização de exposições específicas sobre determinados temas. Tenho curiosidade em saber e ver como alguns criadores abordarão temas concretos, como a corrupção, a fraude fiscal, o desemprego, a violência, as diferenças de género, enfim todo um conjunto de situações reais, que infelizmente existem, mas que plasticamente quase nunca foram abordadas, mas isso será mais adiante.

 

Quando convidas um artista a participar neste projecto sugeres algum tema ou dás-lhe liberdade total?
Nesta primeira fase, as exposições surgem a partir do meu espólio, agora que o projeto se tornou mais conhecido, são os artistas que se dispõem a aderir e todos sabem os propósitos do projeto. Todos têm consciência e à partida concordam com a necessidade da existência de uma arte de intervenção social e vão trabalhando em torno dessas áreas com total liberdade, naturalmente. Numa segunda fase, talvez proponha a realização de exposições específicas sobre determinados temas. Tenho curiosidade em saber e ver como alguns criadores abordarão temas concretos, como a corrupção, a fraude fiscal, o desemprego, a violência, as diferenças de género, enfim todo um conjunto de situações reais, que infelizmente existem, mas que plasticamente quase nunca foram abordadas, mas isso será mais adiante.

Que formas de expressão podemos encontrar na tua coleção que dá vida ao Museu de Causas?
As obras da minha coleção abrangem quase todo o tipo de expressões artísticas, apostei essencialmente no desenho, na pintura e na escultura, mas também na fotografia, assamblages e objetos.

 

Eu, sinceramente, já perdi a conta ao número de exposições e leilões em que participei neste tipo de iniciativas e nunca disse não. Mas sei que começa a ser cansativo e muitos colegas meus já começam a dizer não, pois os pintores, os escultores são sempre sacrificados nesse âmbito. Mas, como sou solidário estou sempre pronto a participar, desde que a associação em causa tenha credibilidade, pois sabe-se – é público – que, muitas vezes, os responsáveis destas instituições, ditas solidárias, estão lá para tratar da vidinha deles e não das dos que mais precisam.

 

Somos um País com inúmeras associações de cariz social que se dedicam a causas, as quais, muitas vezes, convidam artistas para fazerem exposições solidárias. Contudo, por vezes, somos surpreendidos com notícias de que os responsáveis que dirigem essas associações preocupam-se com tudo, menos com a Causa da associação que dirigem. Não te preocupa esta espécie de “nuvem negra”
Infelizmente, vivemos num país em que para se fazer alguma coisa tem de se bater à porta dos criadores, que coitados, muitos deles não usufruem de qualquer apoio. Qualquer instituição dita de solidariedade social (há exceções, naturalmente), quando precisa de comprar uma carrinha, uma cama para um doente ou uma máquina de lavar ou proporcionar um tratamento especial a um doente no estrangeiro, vão ter com artistas individualmente ou associações de artistas para organizarem exposições ou leilões de beneficência. Eu, sinceramente, já perdi a conta ao número de exposições e leilões em que participei neste tipo de iniciativas e nunca disse não. Mas sei que começa a ser cansativo e muitos colegas meus já começam a dizer não, pois os pintores, os escultores são sempre sacrificados nesse âmbito. Mas, como sou solidário estou sempre pronto a participar, desde que a associação em causa tenha credibilidade, pois sabe-se – é público – que, muitas vezes, os responsáveis destas instituições, ditas solidárias, estão lá para tratar da vidinha deles e não das dos que mais precisam. Essa “nuvem negra” que referes existe infelizmente em quase todas as áreas, há pessoas desonestas em muitas e muitas atividades e profissões.

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Desenho de Albuquerque Mendes

Não quero terminar a entrevista sem te pedir que nos fales de um outro projecto, o teu “Livro dos Afectos”.
“O Livro dos Afetos” é outra história, apesar de considerar a afetividade e a amizade como causas também. Sou um tipo que sempre tive e tenho amigos (e também inimigos assumidos, que faço questão de manter) e criei, julgo continuar a criar, laços de amizades com muita gente, sobretudo pessoas com quem aprendi e aprendo, de quem gosto e admiro.
Fui juntando cartas, desenhos, pinturas, fotografias, testemunhos de amigos e amigas, de pessoas que visitaram as minhas exposições e o meu atelier e fui colando num livro, só que depois o livro foi enchendo. Muitos dos meus amigos artistas e escritores começaram a trabalhar no próprio livro e foram precisos mais três volumes, portanto este livro, a que chamo “Preciosidades /Livro de Afetos de Agostinho Santos”é, para mim, uma relíquia, cujos originais guardo religiosamente e que, incentivado por alguns amigos vai ser publicado em breve.Mais do que o valor das coisas que lá estão, a mim interessam-me os testemunhos, as mensagens de afeto e de amizade que lá surgem. Tenho lá autênticas maravilhas, cartas do José Saramago, do Júlio Resende, desenhos e textos do Fernando Lanhas, do Eduardo Vítor Rodrigues, da Graça Morais, do José Rodrigues, Ângelo de Sousa, do Júlio Pomar, Cruzeiro Seixas, Mário Cesariny, Paulo Neves, Jorge Curval, Filipe Rodrigues, Albuquerque Mendes (que aliás fez o belíssimo desenho /pintura da capa), poemas manuscritos do Manuel António Pina, da Ilda Figueiredo, do Amadeu Baptista, do Miguel Miranda, desenhos do António Joaquim. Enfim, largas dezenas, julgo que centenas, de criadores que me deram o prazer e o gosto de se manifestarem neste livro precioso, que guardarei para sempre e cujos originais dariam uma excelente exposição de afetos. Talvez seja outro projeto…

 

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