José Rosinhas: “Os artistas plásticos, passam por algumas dificuldades, mas o reconhecimento do público ajuda a superar e a continuar”

Ainda pensou ser comissário de bordo, graças às viagens de avião que, desde muito cedo, começou a fazer com os pais, mas a Arte falou mais alto e foi esse o caminho que decidiu traçar. Com determinação e muito trabalhado tem conseguido “levar a água ao seu moinho”. Ainda antes de terminar a licenciatura em Pintura, na Faculdade de Belas Artes do Porto, começou a colaborar com a Fundação de Serralves, uma casa que que lhe abriu portas, proporcionou conhecimento, mas também “a vontade de voar mais alto”. Além de artista plástico é curador independente e, desde 2012, desenvolve o “Art Gallery Wall”, projecto galerístico/artístico de ocupação de uma parede de um espaço público ou privado, onde cada artista é convidado a expor a sua obra, o seu trabalho de pesquisa, o seu pensamento crítico sobre as problemáticas contemporâneas culturais e/ou artísticas. José Rosinhas, 45 anos, natural da Invicta é, assumidamente, um apaixonado pela Arte Contemporânea.

 

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José Rosinhas, fotografia de Filipe Braga

 

És daquelas pessoas que me apetece entrevistar por diversas razões e falar contigo sobre vários temas. Vamos começar pelo princípio. Como nasceu a tua paixão pelo mundo da Arte?
Foi através do projeto de educação que os meus pais delinearam que me sensibilizou para várias áreas do conhecimento artístico, arquitetónico, e do conhecimento geral também e, acima de tudo, do questionar, do saber pensar e da dialética. Desde criança, fui visita assídua de museus portugueses e estrangeiros e de galerias de arte. O meu pai, António Rosinhas, foi, e ainda é, uma figura fulcral na minha vida pessoal, artística e profissional. Talvez seja por isso que, desde muito novo, queria trabalhar num museu de arte, e consegui, muitos anos mais tarde…
Outra figura de referência na minha escolha pelas artes plásticas foi Maria Augusta Cramez, sobrinha do Mestre Heitor Cramez, e que apelidava de minha “tia”, mas na realidade foi madrinha de casamento da minha mãe. Uma figura importantíssima que complementava a influência dos meus pais. Eu frequentava muito a casa dela, no Marquês, onde tinha muitas obras do tio, um belíssimo autorretrato e umas paisagens naturais de Vila Real, que ainda hoje recordo, lindíssimas.


Alguma vez pensaste seguir outra carreira?
Sim, gostava de ter sido comissário de bordo, pois o meu primeiro voo foi com seis anos de idade e nunca mais parei de viajar até hoje. Adoro voar, adoro viajar, logo, adoro aprender.


E a partir de quando decidiste que o teu futuro seria inteiramente dedicado às Artes?

Quando terminei o 9.º ano de escolaridade e tive que escolher uma área de estudo no secundário. Estudei dois anos na Escola Secundária Rodrigues de Freitas e fiz o 12º ano na Escola Secundária Soares dos Reis, onde tive uma professora fantástica, a escultora Luísa Gonçalves, que me ajudou muito e me reencaminhou para umas aulas de desenho na Gesto – Cooperativa Cultural.

 

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Eva, 1996-2018
Técnica mista sobre contraplacado
180 x 90 cm

 

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Medidor do tempo I, 2018
Electrocardiograma e relógio
Dimensões variáveis

 

Nos últimos anos, desenvolveste o “José Rosinhas Art Gallery Wall”. Projecto que já teve residência em diversos locais. Conta-me como começou, por onde já passou e qual é o conceito?
Sim, é verdade. Hoje em dia, deparamo-nos com uma sociedade repleta de solicitações, sejam culturais ou comerciais. O Homem Contemporâneo está muito mais informado que outrora e deseja ser intelectualmente desafiado por projectos arrojados e inovadores. Penso que a Arte, como resultado da cultura e das modificações diárias do Mundo, deve levar as suas manifestações artísticas, ao público em geral, a todos os lugares, assim como a todos os espaços de convívio, de passagem ou de lazer.
Desde Fevereiro de 2012, o “José Rosinhas Art Gallery Wall” é um projecto galerístico/artístico de ocupação de uma parede de um espaço público ou privado, onde um artista português ou estrangeiro, consagrado ou a iniciar, é convidado a expor a sua obra, o seu trabalho de pesquisa, o seu pensamento crítico sobre as problemáticas contemporâneas culturais e/ou artísticas.
O factor de diferenciação deste projeto é a pretensão de desmistificar o espaço galerístico. Levar a arte contemporânea a espaços não convencionais é um dos objectivos primordiais desta iniciativa artística.
Os trabalhos poderão ser nos seguintes media: vídeo, fotografia, pintura, desenho, instalação e projectos de design.

Até janeiro deste ano foram levadas a cabo as seguintes exposições:
Arq.Com (Porto) – uma exposição colectiva e duas individuais;
Biblioteca Municipal Almeida Garrett (Porto) – uma exposição coletiva;
Casa Museu Abel Salazar (S. Mamede Infesta) – oito exposições individuais;
Exposhop (Porto) – nove exposições individuais e quatro colectivas;
Fábrica Braço de Prata (Lisboa) – uma exposição colectiva;
Fábrica Social – Fundação Escultor José Rodrigues (Porto) – 18 exposições individuais e quatro colectivas;
GNRation (Braga) – uma exposição individual e uma colectiva;
Hous3 – Gabinete de Arquitectura (Guimarães) – uma exposição colectiva e duas conjuntas;
Livraria Gato Vadio (Porto) – uma exposição individual;
Mosteiro de Tibães – uma exposição colectiva;
Museu Júlio Dinis (Ovar) – duas exposições individuais;
Península Boutique Center (Porto) – duas exposições colectivas;
The Oporto Show – Alfândega do Porto – uma exposição colectiva.

Todos estes projetos expositivos perfazem um total de 60 exposições.

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José Rosinhas Art Gallery Wall, na Fundação José Rodrigues (Porto)


O projecto nasceu no Porto e, como referiste, já passou por diversos locais e cidades. Até onde queres chegar com o teu “Art Gallery Wall”?
Sim, tudo começou no Porto, na empresa “exposhop”, na Rua Pinto Bessa, que acolheu os meus alunos em estágio profissional, em 2012. Nessa altura, eu era professor e coordenador de uma escola profissional, a EPCEP – Escola Profissional Centro de Estudos e Trabalho da Pedra. Apresentei o projeto da galeria ao director da empresa que aceitou de imediato, e foi um projeto que o influenciou, pois começou a comprar obras de arte, inclusive algumas dos artistas que expuseram na sua empresa.
Até onde eu quero chegar? Bom… até aos vinte e cinco anos de projeto… Ou até o públicoperceberquem são os artistas e como podemos contemplar a sua obra, num local sem tabus, sem códigos sociais e intelectuais…

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José Rosinhas Art Gallery Wall, na Arq.Com (Porto)

 

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José Rosinhas Art Gallery Wall, na Livraria Barata (Lisboa)

 

Qual é a reacção dos artistas quando os convidas a participar no “Art Gallery Wall”?
Muito positiva. Eu explico o conceito do projecto, ou seja que irão expor não na empresa ou entidade que nos acolhe, mas sim, no “José Rosinhas Art Gallery Wall”. Explico também qual a logística e qual a percentagem que a galeria cobra.


À parte deste, desenvolves outros projectos, enquanto artista plástico?
Enquanto profissional da área desenvolvo trabalhos de curadoria independente. Sou convidado pelos municípios, ou entidades privadas, para criar uma exposição, com ou sem tema pré-definido. Enquanto artista plástico sou convidado a participar em exposições colectivas ou a produzir exposições individuais.


Dedicas-te a 100% à Arte ou, em simultâneo, tens outras ocupações?
As funções que desempenho actualmente são de: diretor artístico do projeto “José Rosinhas Art Gallery Wall”, curador independente, monitor do Serviço Educativo na Árvore – Cooperativa de Atividades Artísticas, guia do turismo industrial na Câmara Municipal de São João da Madeira e, como é óbvio, sou artista plástico.

 

Fui muito privilegiado porque conheci todos os críticos de arte e historiadores da praça, José-Augusto França, Rui Mário Gonçalves, Bernardo Pinto de Almeida, Raquel Henriques da Silva, entre outros. Entre os artistas plásticos, saliento: Nikias Skapinakis, José de Guimarães, Eduardo Nery, Nan Goldin e Robert Rauschenberg. Há dias, em Serralves, tive o privilégio de conhecer pessoalmente Anish Kapoor.

 

Quando terminaste a Licenciatura em Artes Plásticas – Pintura, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto foste parar a Serralves. Fala-me dessa experiência, de como era Serralves nessa altura, que pessoas conheceste lá e o trabalho que desenvolveste ou ajudaste a desenvolver.
Não foi quando terminei o curso que fui para Serralves. Eu estava no último ano da faculdade e tinha decidido que queria estudar e aprender mais sobre História de Arte Moderna e Contemporânea, e sabia que o Professor Fernando Pernes ministrava um curso de História na Casa de Serralves. Inscrevi-me e, quando vim do programa Erasmus de Coventry, em Inglaterra, comecei a frequentar o curso. Nessa altura, reparei que a Casa de Serralves tinha uns jovens estudantes como assistentes de sala, perguntei se estavam a aceitar colaboradores, disseram-me que não, mas passado uns meses, em maio de 1998, perguntaram-me se eu continuava interessado em integrar a equipa de assistentes de sala e a minha vida mudou para sempre.
Passei a ser aluno do Professor Fernando Pernes e era assistente de sala na Casa de Serralves. Uns meses mais tarde, o assistente do professor foi trabalhar para a Galeria Pedro Oliveira, e andavam à procura de alguém de História de Arte. A Isalinda Pinheiro, a quem eu devo muito, indicou-me ao Professor e foi assim que, durante cinco anos, fui Assistente do Assessor Cultural de Serralves. Que orgulho! Que escola! Além disso, e porque sempre adorei o Serviço Educativo, mesmo na altura que colaborava com o Professor Pernes, pedia autorização para fazer visitas-guiadas.
Resumindo, de 1998 a 2003 fui Assistente do Assessor Cultural da Fundação de Serralves, Prof. Fernando Pernes. De 1998 a 2009 desempenhei funções de Monitor do Serviço Educativo no Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves. Em 2005 convidaram-me para substituir o Prof. Fernando Pernes, no Turismo Cultural. De 2005 a 2010 fui comissário e acompanhante das Viagens de Turismo Cultural da Fundação de Serralves.
Fui muito privilegiado porque conheci todos os críticos de arte e historiadores da praça, José-Augusto França, Rui Mário Gonçalves, Bernardo Pinto de Almeida, Raquel Henriques da Silva, entre outros. Entre os artistas plásticos, saliento: Nikias Skapinakis, José de Guimarães, Eduardo Nery, Nan Goldin e Robert Rauschenberg. Há dias, em Serralves, tive o privilégio de conhecer pessoalmente Anish Kapoor.


Calculo que uma das pessoas, que mais te marcou nessa época, tenha sido Fernando Pernes. Fala-me da tua relação com ele.
A minha relação profissional com o Prof. Fernando Pernes foi sempre de admiração, por um homem com uma mente brilhante e de um profissionalismo irrepreensível. Preparava-se sempre para as suas aulas de um modo impecável, estudava, estudava, estudava…
Em 2003 escreveu um texto sobre a minha obra para uma exposição que eu ia realizar numa galeria de arte no Porto e, ainda hoje, de vez em quando, o releio… boas recordações.
Acrescento que fui muito feliz no gabinete do Professor, e com a Manuela Ferreira, sua secretária. Eramos um trio muito coeso, uma verdadeira equipa. Até que um dia eu quis voar mais alto e arriscar na vida. Em 2003, deixei o gabinete da Assessoria Cultural.
A instituição nunca quis que eu passasse para o quadro e que ficasse efetivo, e o professor nunca foi capaz de me ajudar. Um dia mais tarde pediu-me desculpa por, como ele disse, “fui muito mauzinho para si…”. Por ele me ter dito essa frase e por me ter ajudado na medida do possível, admiro-o muito. É muito raro, hoje em dia, encontrarmos pessoas que nos venham pedir desculpa pelo malque nos fazem.


Qual foi a influência que Fernando Pernes exerceu sobre ti?
Apesar de nunca ter dito a palavra, foi a “ética”. Ética profissional.


Em que altura saíste definitivamente de Serralves?
Foi por etapas/fases. Em 2003 saí do gabinete do Assessor Cultural, mas continuei a colaborar no Serviço Educativo, até 2009. E em 2010 terminei a colaboração no Turismo Cultural.
Este ano, estou a colaborar, novamente, com a Fundação de Serralves através de um curso de pintura, cujo início está previsto para outubro, e no Turismo Cultural.

 

A Fundação de Serralves e o seu Museu de Arte Contemporânea são das melhores instituições do mundo. Dos vinte países que conheço, posso dizer-te que o museu é um dos melhores do mundo. Abriu-me horizontes e, para ser sincero, abriu-me e abre-me portas.

 

Pode dizer-se que Serralves foi uma boa escolha, para início de carreira? Abriu-te horizontes?
Sim! A Fundação de Serralves e o seu Museu de Arte Contemporânea são das melhores instituições do mundo. Dos vinte países que conheço, posso dizer-te que o museu é um dos melhores do mundo. Abriu-me horizontes e, para ser sincero, abriu-me e abre-me portas.


Que outras instituições ou pessoas, com quem já trabalhaste, te marcaram pessoal e profissionalmente?
Como já trabalhei/colaborei com várias entidades e pessoas, só te posso dizer que umas marcaram-me pela positiva, outras pela negativa. Sabendo de antemão que, no futuro vou encontrar pessoas que me vão ajudar, eu vou aprender com elas; mas também vou encontrar outras que me vão prejudicar, em prol de amizades ou de laços familiares. Estes, os que me prejudicam, são os que me dão força para continuar a lutar. Lutar, lutar e muito.


Como é ser artista plástico no nosso País?
Fantástico! O serartista plástico vai-se construindo, não é pelo diploma do curso dizer que tenho uma Licenciatura em Artes-Plásticas Pintura que sou Artista Plástico, eu vou-me construindo como tal. A pesquisa e o trabalho no atelier têm de ser contínuos e sinceros. Sincero connosco próprios e com o público. Os artistas plásticos, passam por algumas dificuldades, mas o reconhecimento do público ajuda a superar e a continuar.

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