Manuela Leitão e a plasticidade das palavras e do tempo

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Há pessoas que têm a capacidade de nos surpreender. Manuela Leitão é uma dessas pessoas. Conhecia no extinto Clube Literário do Porto e foi muito fácil gostar dela, logo, à primeira vista. No início foi a Poesia e a Música que nos aproximaram. Com o passar do tempo, descobri que é uma verdadeira caixinha de surpresas. Atrás do olhar sereno e do sorriso sincero está uma mente criativa, sempre à procura de novas experiências. Experiências tão abrangentes que vão do teatro à fotografia, passando pela escrita de contos e poesia, pela narração de histórias, pela ilustração, entre muitas outras actividades. Fica o convite, em forma de entrevista, para conhecer melhor a multifacetada Manuela Leitão.

 

Conheci-te no meio dos livros, da música e da poesia, sem imaginar que eras licenciada em Ciências da Nutrição. O que te levou a abandonar a carreira docente e a enveredar pela tua, digamos, vertente mais cultural?
Aprender, experimentar, conhecer. Voltar a aprender, a experimentar, a conhecer. E nem sempre obrigatoriamente por esta ordem, foram-se tornando obrigatórios estes meus passos, este modo de estar na vida – perante os outros, perante o saber, o querer saber e o querer fazer cada vez melhor. Nem sempre será fácil, ou intuitivo, para alguns, encontrar logo num primeiro relance pontos de encontro entre as ciências, a poesia, a imagem, as histórias, mas ninguém demorará muito tempo a reconhecer que os há. Sem a consciencializar, essa deve ter sido a minha mais primordial perspetiva, logo, a raiz das escolhas que acabariam por se tornar as da minha vida.

De ti, tenho a impressão de seres uma mulher multifacetada, que gosta de fazer muitas coisas: declamação, teatro, fotografia, artesanato, narração de histórias, só para dar alguns exemplos. Mas, ao mesmo tempo, os teus olhos verdes transmitem sempre uma enorme serenidade. Como consegues organizar o teu tempo e fazer tudo aquilo de que gostas?
Chamo-lhe sobrevivência. Não, digo melhor, chamo-lhe imprescindibilidade, urgência, essencialidade. Como poderia viver plenamente se não fizesse tudo o que posso para ser feliz no meu dia a dia, para fazer o que gosto, sobretudo quando tal só depende de mim? Já não bastarão os sonhos, os desejos que (ou, numa leitura menos fatalista, suspeitamos, à partida, que) não conseguimos concretizar? Sim, há alturas em que prescindo de horas de sono, troco um fim de semana mais relaxado – e como eu gosto de dormir, como eu gosto do dolce fare niente! – em prol do tempo de que preciso para me dedicar às minhas coisas. Mas é a minha escolha. E quem é que não faz tudo o que está ao seu alcance para poder ser um bocadinho mais feliz?

A escrita de livros infanto-juvenis é outra das tuas paixões. Mas já vem de longe. Aliás, o teu primeiro livro foi publicado em 1997, pela Campo das Letras. Fala-nos dessa Viagem ao Mundo da Alimentação.
Chamo-lhe o meu livro-primeiro: o primeiro que escrevi com a intenção de ser livro; o primeiro que foi publicado; o primeiro de língua portuguesa (espero não estar a cometer perjúrio!) a divulgar, a um público jovem, as regras para uma alimentação equilibrada; e o primeiro do género que foi apadrinhado pelo Dr. Emílio Peres, consagrado médico endocrinologista, mentor-mor da educação alimentar em Portugal e meu orientador de estágio. Concebido no âmbito do desenvolvimento da minha tese de final de curso, narra as aventuras de um rapazinho que se acha inesperadamente dentro de uma Roda dos Alimentos. E, embora necessitado de atualizações – a Roda sofreu, entretanto, algumas alterações –, sei que este livro continua a ser uma ferramenta de trabalho em muitas escolas e que os alunos continuam a procurá-lo nas bibliotecas. Na minha lista “a fazer”, consta já um “atualizar a Viagem ao Mundo da Alimentação”.

 Em 2014, sentiste, de novo, o apelo da escrita e surgiu um novo e magnífico livro, Poemas da Horta e Outras Verduras, com ilustração de Marta Monteiro e chancela da Máquina de Voar. Como foi voltar à escrita e, depois, todo aquele contacto que tiveste com as escolas que visitaste e os milhares de crianças com quem partilhaste esta obra?
Foi maravilhoso. E também espontâneo e, por isso, natural. Assim, como se não pudesse ser de outra maneira. Na verdade, não deixara de escrever; apenas não partilhava publicamente o que escrevia. Quando acabei os Poemas da Horta e Outras Verdurasachei que dessa vez o devia fazer, por mim e pelas pessoas a quem os dei a ler. A Máquina de Voar gostou e assim nasceu o meu segundo livro. Ao contrário do que aconteceu com o anterior, que praticamente não foi trabalhado nesse sentido, comecei desde logo a apresentá-lo nas escolas. E foi-me surpreendente a forma como foi – e continua a ser – acolhido pelos mais novos. Quando estamos assim próximos dos mais pequenos, percebemos quanto eles gostam de histórias, de poesia (sim, as crianças gostam de poesia), de ouvir contar, muitos até de escrever e inventar as suas próprias histórias. Apercebemo-nos, porém, de que depois, mais tarde, começam a perder pelos seus caminhos de vida o encanto da leitura e da imaginação. É urgente impedirmos esta perda, esta espécie de roubo que nos torna tão pouco criativos, tão pouco sonhadores.

Quais as principais reações que reténs das crianças, dos professores e até mesmo dos pais? Sentiste que, de alguma forma, contribuíste para que os mais pequenos olhassem para os legumes com outros olhos?
Sim, os mais pequenos e até os maiores. Em muitas das nossas conversas, vão sendo reveladas curiosidades, experimentados conceitos, trocadas experiências que suscitam atenções acrescidas, provocam interrogações. Muitos não (re)conhecem a curgete, a beringela, a beterraba, o alho-francês ou mesmo a couve-flor; por isso, faço-me acompanhar sempre pelos meus “assistentes” – um cabaz de legumes frescos –, que passo para as mãos dos miúdos, para que os possam tocar, sentir-lhes a macieza ou a aspereza da pele, cheirar. Falamos das suas vantagens nutricionais como alimentos, de como se cultivam, de como podemos utilizá-los na cozinha, mas também imaginamos histórias, criamos novos poemas e inventamos rimas para os legumes que não couberam neste livro.

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Apresentação do livro Poemas da Horta e Outras Verduras, numa escola em Esposende

 

Este teu livro faz parte do Plano Nacional de Leitura e é recomendado para apoio a projectos relacionados com a natureza/ defesa do ambiente, no Pré-Escolar, 1º e 2º anos de escolaridade. Acredito que esta situação de tenha deixado muito feliz, sentes uma responsabilidade acrescida por tal recomendação?
Na medida em que posso, com este livro, chegar a mais escolas e, portanto, a mais crianças, professores e pais, sim. Sinto que conquistei uma oportunidade de ouro para dar a conhecer, de um modo ligeiro e bem-humorado, hábitos alimentares saudáveis, cuidados a ter na escolha dos nossos alimentos, costumes que devemos adotar para a preservação dos nossos recursos naturais e defesa dos ecossistemas, por exemplo, ao mesmo tempo que dou a conhecer o lado divertido da poesia e dos contos.

E, como não há duas sem três, em 2017 publicaste mais uma belíssima obra – Poemas para as Quatro Estações–, desta vez com ilustração de Catarina Correia Marques e de novo com a chancela da Máquina de Voar. Este livro foi nomeado pela Sociedade Portuguesa de Autores para Melhor Livro Infanto-juvenil. Não chegaste a vencer o título que foi arrecadado pela obra O Museu do Pensamento, de Joana Bértholo, com ilustração de Pedro Semeano e Susana Diniz e chancela da Caminho.Como sentiste e viveste todo este processo, desde que soubeste que estavas nomeada?
Em êxtase. Até esse momento, nunca tinha esperado ser nomeada para o que quer que fosse – principalmente no que à literatura diz respeito. Por isso, fiquei encantada, embevecida, orgulhosa – o meu primeiro pensamento foi para a minha editora (“obrigada, Máquina, esta é também uma forma de te agradecer a confiança que depositaste em mim”). Tudo por uma mera questão pessoal, de realização, de satisfação para comigo mesma – não é tão bom sabermos que as nossas palavras, as nossas memórias, aquilo que saiu de dentro de nós, as nossas forças e também fraquezas tocam os outros? Neste processo todo, nunca esperei vencer o troféu; sim, gostava de o ter recebido na Gala, onde estive presente, mas, já antes, isso nunca fora assim tão importante. Importante mesmo foi a nomeação.

 Já tens um novo livro na forja?
Ter, tenho. Mas também tenho uma forja gigantesca, cheia de ideias, de esquemas, planos – uns mais interessantes, outros nem por isso, com certeza. Na linha infantojuvenil, mas não só. Pronto, reconheço que preciso de reler a minha resposta à questão 2, para saber o que fazer com o tempo que sempre escasseia…

Independentemente de estares a trabalhar já num próximo livro, gostando tu de tanta coisa, em que outros projectos estás envolvida, de momento?
Associei-me recentemente a um projecto de voluntariado de leitura em voz alta a doentes internados (em ambiente hospitalar) e sigo com as minhas costuras – mais virada agora para sacos de algodão orgânico e estampagem manual. Naturalmente, mantenho a minha atividade profissional regular: revisão ortográfica, produção de conteúdos e locução.

Sei que valorizas muito a formação contínua. Estás a frequentar alguma formação neste momento?
Estou a terminar uma unidade de formação da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, sobre ilustração. E estou a ponderar candidatar-me a um curso de ilustração científica.

É a Poesia que tens dentro de ti que te faz criar tantas e tão diversas formas de arte?
Talvez seja, gosto de pensar que sim. Isso e também o amor pela vida; a devoção pela natureza; a capacidade de observação; conseguir e querer fazer muito, mas também saber apreciar o silêncio e ser capaz de deter os olhos no horizonte, sem pressas nem cansaços; ter a coragem de resgatar memórias e de as partilhar… a gratidão, enfim, por estar aqui e ter oportunidade de conhecer tanto e tanta gente.

 

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Narração oral — “Um Porto de Contos”, Duas de Letra

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