Helena Sarmento: “Ouço Fado, mais propriamente Amália, desde que me lembro de ser gente”

 

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Helena Sarmento


Ouvir música, caminhar, nadar, ver o mar “e as gaivotas perfiladas no silêncio do sol pôr”, jantar e estar com os amigos são os hobbies de Helena Sarmento. Natural de Lamego, onde nasceu há 37 anos, foi na Universidade do Minho que fez a licenciatura em Direito, entre 1999 e 2004, mas Helena divide as barras dos tribunais com os palcos, apaixonada que é pela música, em particular pelo Fado. Aliás, na lista dos seus cantores preferidos aparece Amália, seguida de Elis Regina, Nina Simone, Edith Piaf, Maria Callas e, ainda, Benjamin Clementine. Em entrevista ao nosso blogue a Advogada-Fadista fala-nos do seu percurso e dos três trabalhos discográficos que já gravou.

 

Advogada de formação, é uma confessa apaixonada pelo Fado. Prova disso são os três álbuns que já gravou. Como surgiu o gosto por este género musical?
Ouço Fado, mais propriamente Amália, desde que me lembro de ser gente.

Foi uma descoberta que fez sozinha ou teve a influência de alguém?
Claramente, é uma influência do meu pai, amaliano convicto. Quando digo que ouço fado desde que me lembro de ser gente, isso está intimamente ligado ao meu pai, que ouvia permanentemente Amália. Almoçávamos, muitas vezes, a escutá-la.

E quando é que sentiu o chamamento do Fado?
Aos 21 anos comecei a cantá-lo e até aos 28 era algo que me dava muito prazer, de vez em quando, mas que não era, ainda não era, a minha vida.

Fale-nos um pouco mais da influência do seu Pai, nesta aventura pela música, sendo ele também advogado.
Determinante. Seja pelo gosto pela música, pela arte, pela literatura, pela cultura em geral, que desde sempre me (nos) incutiu, seja pelo apoio muito concreto e forte que sempre me deu, desde o início desta deliciosa aventura na vida artística, que é, claramente, a minha vida.

O seu mais recente CD tem o título de um poema, precisamente, da autoria do seu Pai, ‘Lonjura’. Foi uma homenagem que lhe quis prestar pelo apoio e confiança que lhe tem dado?
Sim, ‘Lonjura’ é um poema do meu pai que canto neste disco. E canto-o num dos fados que o meu pai melhor cantava – o Fado Menor do Porto. Chamar este disco pelo nome próprio desse seu poema é a minha homenagem pelo privilégio de o ter como Pai. Também me agrada este título por outra razão: neste disco em nenhum lugar surge a palavra ‘saudade’, essa dominadora presença da ausência; ‘Lonjura’ é aqui o seu superlativo: a presença da ausência de quem ainda está presente, a mais insuportável das saudades, tecida pelas mãos da doença.

Em 2011 editou o primeiro trabalho discográfico ‘Fado Azul’ e dois anos depois o segundo ‘Fado dos Dias Assim’. Ambos editados para todo o mundo com o selo da Sunset France. Como aconteceu esse processo?
Foi relativamente simples. Enviei as minhas edições de autor para a Sunset France, eles gostaram e propuseram editar internacionalmente o que, logicamente, aceitei. É um privilégio grande ter os meus discos um pouco por todo o mundo através de uma editora que tem no seu catálogo pouquíssimos nomes do Fado e nomes de muito prestígio e amplamente reconhecidos.

O seu mais recente trabalho foi lançado a 13 de Abril deste ano e é disco Antena 1. O que sente com este reconhecimento? Confere-lhe mais responsabilidade?
Orgulho-me muito desse reconhecimento. Sim, confere mais responsabilidade, mas ao mesmo tempo, liberta-me mais. Quero com isto dizer que, quando eu pego num disco que tem selo Antena 1, parto do princípio de que, gostos à parte, tenho nas mãos um trabalho de qualidade. É como se algumas coisas ficassem logo ditas desse modo, pela aposição do selo.
O meu orgulho neste disco é triplo: além de disco Antena 1, ‘Lonjura’ tem também selo do Museu do Fado e da Fundação GDA.
Trabalhei muito para tudo isso me acontecer, mas a verdade é que podia ter trabalhado e não ter acontecido. Por isso sou grata.

 

Quem são os músicos que a acompanham nesta ‘Lonjura’?
Samuel Cabral, na guitarra portuguesa; André Teixeira, na viola; e Ginho, na viola baixo.

São os mesmos que a acompanharam nos trabalhos anteriores?
O Samuel Cabral está comigo desde sempre, (desde 2010, ano da gravação do ‘Fado Azul’. Ele é também determinante deste projecto, em que sempre acreditou), o Ginho tinha trabalhado comigo no ‘Fado Azul’ (mas no contrabaixo). A estreia é do André Teixeira. É a primeira vez que trabalhamos juntos, sendo que foi ele quem fez os arranjos do disco (destaco os arranjos de ‘Era um Redondo Vocábulo’, de Zeca Afonso e ‘O Bêbedo e a Equilibrista’, de extremo bom gosto).
Também é uma estreia o José Lourenço, que gravou, misturou e masterizou o disco e com quem foi um imenso prazer trabalhar.

Além de Portugal – onde tem actuado nos mais diversos palcos – também tem feito carreira no estrangeiro. Qual é o país onde mais gosta de cantar, fora de Portugal?

Os países onde até hoje mais gostei de cantar foi em França (especialmente em Paris) e na Polónia (público muito, muito especial).

Vive e trabalha no Porto, onde é que os seus fãs a podem ouvir? Canta, regularmente, em alguma casa de Fado?
Além dos concertos, canto, com muita regularidade, no restaurante típico O Fado, no Largo de S. João Novo. Faço parte da casa que é também como família. É uma casa de ambiente familiar, acolhedor e requintado, onde tudo é bom (do Fado aos petiscos maravilhosos da D. Manuela, uma deusa na cozinha).

Como é recebida no estrangeiro? Qual é a reacção do público, mesmo não entendendo as letras?
Sempre muito bem. Costumo dizer que o Fado é uma música da alma, um encontro de almas. Quando esse encontro se verifica, acontece Fado. Só por isso – e não é pouco, acho eu… – a forma como o público se predispõe a ouvir e sentir o fado conta tanto, muito mais do que quando se canta noutros estilos que não o fado.
Quanto às letras, uma das coisas que ouço muito é “não percebi nada do que disse, mas tocou-me tanto”. Também já me disseram “tinha que estar a falar de amor, não podia ser de outra coisa”. Bonito, não é? Claro que perceber as letras enriquece muito o momento, mas a música é mesmo uma linguagem universal, tal como o sentimento.
Não obstante, não prescindo de ter um livrinho com os poemas traduzidos dentro do disco (apesar de isso encarecer, e bastante, as minhas edições de autor…).

E por falar em letras, o seu letrista por excelência continua a ser o joão gigante-ferreira. Foi sugestão da Helena a criação do ‘Fado Jurídico-Criminal’ ou a iniciativa partiu do João, uma vez que é advogada de profissão?
O joão gigante-ferreira é, de facto, o meu letrista preferido (para mim é poeta e o Nobel entregue ao Bob Dylan só reforçou a minha convicção).
Costumo dizer que se eu soubesse escrever eram aquelas as palavras que eu gostaria de cantar. São muito belas. E são de facto palavras novas, palavras raras. Mas o joão gigante-ferreira não é ‘apenas’ o poeta. É cúmplice do projecto. É também a pessoa que mais acredita em mim. Sem ele, este último disco, ‘Lonjura’, provavelmente não existiria.
Ele escreveu o ‘Fado Jurídico-Criminal’ já há uns anos. A música é do André Teixeira.
O eu ser advogada é, apesar de tudo, o menos importante (imagino-me a cantar esse fado, mesmo que tivesse outra formação…)
É uma farsa, um momento quase-vicentino, que aborda de forma divertida um assunto muito sério, hoje tão presente no espaço mediático: a justiça. (Evidentemente, qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência…)

Como é ser advogada e fadista ao mesmo tempo? Já teve alguma situação caricata ou peculiar por causa desta dualidade?
Dá muito trabalho (risos). São ambas profissões exigentes e absorventes. O grande problema é o tempo, tempo para tudo… O Fado tem ganho nessa corrida.
Não me lembro de nada de especial, a não ser aquelas brincadeiras normais de quem me viu na véspera numa entrevista, por exemplo, e depois me vê no tribunal… Uma vez tentei adiar um julgamento porque tinha um concerto em Paris, mas no requerimento não coloquei o motivo. O juiz não aceitou porque achou que eu ia passear… Infelizmente, tenho dúvidas de que se tivesse dito que ia cantar não fizesse uma interpretação semelhante… A maioria das pessoas não tem noção da exigência de um concerto e de tudo o que o envolve, especialmente se estamos longe de casa. Conclusão, fui, literalmente, directa do aeroporto para o tribunal. Quase sem dormir. Ah e o julgamento acabou por ser adiado… Depois de mais de duas horas de espera no tribunal!…

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Helena Sarmento

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