Paula Teixeira: “Nunca é tarde para acreditarmos e arriscarmos”

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Nasceu em Luanda, Angola, mas veio de lá com nove meses. Aliás, apenas nasceu lá porque o Pai, que era militar, em 1961, foi chamado para a Guerra no Ultramar. De resto, Paula Teixeira sempre viveu em Guimarães, com excepção dos anos em que estudou no Porto. Cidade que nunca mais esqueceu e para onde, há pouco tempo, decidiu mudar-se de malas e bagagens, dando uma volta de 360.º à sua vida, aos 55 anos de idade. Uma prova de que nunca é tarde para acreditarmos no nosso potencial, nas nossas convicções e arriscar. Paula Teixeira veio decidida a apostar numa carreira sólida como artista plástica com o seu mundo cheio de cor, seja nas telas que pinta ou com o barro das esculturas. Depois de ter participado em muitas colectivas prepara-se para, no próximo sábado, dia 27 de Outubro, inaugurar a sua primeira individual. O palco vai ser a Pousada de Santa Marinha, em Guimarães.

 

A par da Pintura, a Escultura está muito presente na tua arte. Como e quando começaste a trabalhar o barro?
Comecei muito cedo. Tinha uns 12, 13 anos. Não sei explicar bem porquê, talvez por influência de algumas conversas com o meu avô… Era com ele que eu falava e mostrava as minhas coisas. Um dia, comprei barro e fiz os meus bonecos. Lembro-me que o meu avô ficou pasmado. Gostou tanto que me pediu uns poucos e foi expô-los na Sociedade Martins Sarmento. Na altura, era tão nova, que não liguei nada a isso. Trabalhar o barro é, sobretudo, um prazer imenso e uma descoberta constante. Adoro pegar num bocado de barro e deixar-me ir. As mãos ganham vida própria. É um mundo feito de descobertas, de formas e de um certo primitivismo. É um material que permite fazer coisas que não resultariam de todo na pintura. Ao mesmo tempo, trabalhar o barro, é também uma forma de descomprimir. O mais curioso é que, por motivos vários, estive parada quase 30 anos. Quando meti, de novo, as mãos no barro foi um misto de ansiedade e alegria enorme. É sempre um voltar às origens.

Trabalhar o barro é, sobretudo, um prazer imenso e uma descoberta constante (…)

O mais curioso é que, por motivos vários, estive parada quase 30 anos. Quando meti, de novo, as mãos no barro foi um misto de ansiedade e alegria enorme. É sempre um voltar às origens.

 

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Onde vais buscar a inspiração para as tuas esculturas?
Sempre achei essa pergunta curiosa. Já ma fizeram algumas vezes, mas fico sempre a pensar…. a inspiração vem de tudo, por tudo e com tudo. Do que vejo, do que ouço, do que leio, do que sonho, de todas as emoções. Depois, faço o processo inverso de tudo o que não quero ver, nem ouvir, nem ler, etc. e, sobretudo, não assimilar. Mas, posso dizer que quase sempre vem do sonhar e do saber observar a realidade, para conseguir – umas vezes, melhor do que outras – não retratar a minha essência o que me vai cá dentro.

Apesar de também trabalhares a preto e branco com o carvão, a maior parte das tuas telas são preenchidas com muita cor. De onde vem essa força que retratas nas telas?
Apesar de serem maneiras de expressão diferentes, a essência é a mesma. Reconheço que sou uma pessoa com alguma criatividade. Adoro criar e a pintura tem sido um campo fantástico. Sou uma apaixonada pela cor. Amo a cor. É algo que não consigo explicar. É um fascínio. A tela branca intimida-me, às vezes dá um certo medo. Depois vem o desenho, já fico melhor. Depois vem a cor e com ela um misto de alegria, um sentimento de derrubar fronteiras, mas até colocar a tela a “falar comigo”, encontrar a sua alma é um desassossego e um medo constante. Não é fácil. A cor também intimida, desconstrói, desestabiliza. Como sabes, durante muitos anos fui decoradora de interiores e as minhas decorações tinham sempre muita cor, ao contrário dos meus colegas que fugiam dela (risos). Para eles era tudo em tons de castanhos, brancos, pretos e os embirrantes bejes. Mas o meu interior é muito colorido.

 

A tela branca intimida-me, às vezes dá um certo medo. Depois vem o desenho, já fico melhor. Depois vem a cor e com ela um misto de alegria, um sentimento de derrubar fronteiras, mas até colocar a tela a “falar comigo”, encontrar a sua alma é um desassossego e um medo constante. Não é fácil. A cor também intimida, desconstrói, desestabiliza.

 

Como tem sido a reacção do público ao teu trabalho?
Tem sido muito boa, apesar da minha experiência nesta área ser muito recente – dois anos – ainda estou no início. Não é fácil, mas tudo na vida se conquista e constrói e eu estou a construir o meu percurso. Foi isso que me fez vir de Guimarães para o Porto e deixar o certo pelo incerto. Mas, ou dava este passo agora para lutar por uma paixão, ou desistia completamente. Uma paixão alimenta-se de uma dádiva constante de amor e de um fiel compromisso. É o que estou a tentar fazer.

Tens um público para as esculturas e outro, diferente, para as telas?
O público das esculturas é mais ou menos o mesmo da pintura. Em geral, quem gosta da escultura gosta da pintura, mas é claro que há sempre quem prefira mais uma do que outra. É normal e, até, saudável porque são formas diferentes de arte e de expressão.

Como está a decorrer a tua adaptação à Invicta?
Até agora, a mudança tem sido pacífica. O Porto é uma cidade que me é familiar e que me está a proporcionar outro mundo, outros contactos, outras pessoas e conhecimentos que Guimarães não me podia dar.

Tens o privilégio de ter na tua vida pessoas que te aconselham e cuja opinião tem um peso muito importante para ti, no que à qualidade do teu trabalho diz respeito. Queres falar-nos delas?
Sim, na verdade, tenho algumas pessoas. Destaco uma senhora a quem devo, eternamente, uma enorme gratidão. Chama-se Rosa Roeder é psicóloga e proprietária de um lindo hotel em Guimarães, o Mestre de Avis. Além disso, é uma grande apreciadora e coleccionadora de arte.

Tens participado em diversas colectivas. Fala-nos dessa experiência.
Tem sido uma experiência muito positiva. Tenho conhecido pintores, escultores, entre outras pessoas da área. Ao mesmo tempo também me tem proporcionado um enriquecimento pessoal. Tenho tido a oportunidade de ver outras formas de expressão, de falar e aprender com artistas com carreira e, ao mesmo tempo, de divulgar o meu trabalho. Ver o nosso trabalho exposto com outros nomes conhecidos é extremamente gratificante.

Apesar de, como dizes, teres começado há pouco tempo, o teu trabalho já começou a ganhar asas. Além de Portugal em que países é que o teu trabalho já está representado?
Estou representada em colecções privadas em Espanha, França, Alemanha, Chipre, Guatemala e Inglaterra.

 

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No próximo sábado, dia 27 de Outubro, inauguras a tua primeira individual, na Pousada de Santa Marinha, em Guimarães. Por que é só agora vai acontecer e como surgiu o convite?
O convite só agora aconteceu porque não tinha trabalhos suficientes para fazer uma exposição individual. Só há pouco tempo me dedico, exclusivamente, à arte. Esta exposição vai ter trabalhos de pintura, com técnicas diferentes, e alguma escultura.
A iniciativa partiu de Rosa Roeder que enviou fotos de alguns dos meus trabalhos de pintura e escultura para a directora da Pousada, Natália Maia. E foi assim que surgiu o convite para lá expor.
No próximo ano, vou expor na Alemanha e já estou a trabalhar para programar mais duas exposições. Todas individuais, pelo que tenho muito trabalho pela frente.

 

Tenho noção de que sou muito exigente comigo e com os outros, caso contrário, não vale a pena. Tenho que dar sempre o meu melhor, independentemente da qualidade do mesmo, mas é o meu melhor. Se não estiver bem no que é a minha paixão incondicional, então não estou bem em nada

 

Qual é o teu maior sonho?
Sem dúvida, ser feliz. Pode parecer muito banal, mas é algo muito difícil de alcançar.
Sou uma pessoa que nunca fica satisfeita com o que faço e isso provoca-me alguma ansiedade e um certo desassossego interior que, por vezes, leva a uma certa infelicidade. Tenho noção de que sou muito exigente comigo e com os outros, caso contrário, não vale a pena. Tenho que dar sempre o meu melhor, independentemente da qualidade do mesmo, mas é o meu melhor. Se não estiver bem no que é a minha paixão incondicional, então não estou bem em nada. Ser artista não é fácil, por muitos e variados aspectos. É preciso trabalhar muito, ter um espírito crítico grande, ser um eterno curioso no que diz respeito a tudo o que é novidade, sem deixar que essa mesma novidade nos limite e aprisione; ser disciplinado e aproveitar a inspiração que tem muito de transpiração. Mas como diz o povo “quem corre por gosto, não cansa”. E sendo ou estando feliz produzo mais e com melhor qualidade, sabendo que a minha felicidade depende da minha paixão. Não é fácil, mas tento, e tenho excelentes momentos.

E a tua maior vontade?
Que o meu trabalho seja, cada vez mais, conhecido. Fruto de uma constante evolução e de um valor artístico reconhecido. E que consiga executar, se não todas, pelo menos algumas das coisas que estão na minha cabeça, a nível das artes plásticas.
Ainda não as posso fazer, por vários motivos, mas a vontade é grande. Além disso, tenho outras vontades, a nível pessoal e social entre outras, que não se partilham (risos). Mas há uma que resume tudo VIVER e que o Homem se deixe viver, pois tenho algum, para não dizer muito, receio do caminho que a Humanidade está a escolher.

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